17 de nov. de 2008

Pan-Cinema Permanente, Urgente!

Pan-Cinema Permanente, Urgente!

Sentado numa dessas mesinhas que circundam a livraria Cultura aqui no Conjunto Nacional (na av. Paulista), começo a refletir sobre a beleza que o destino me presenteou nesta tarde/noite de sábado: uma sessão gratuita de Pan-Cinema Permanente, documentário de Carlos Nader sobre o saudoso poeta Wally Salomão (1943-2003).


É que após ter participado de uma reunião de trabalho para ainda possível viabilização de um trabalho, estava cansado, o dia quente, e estava mesmo a caminho de casa; quando subitamente resolvi encarar a bilheteria do Cine Bombril 2, e surpresa! Pelo menos nesta semana de estréia (e somente lá), portanto até o dia 20, quinta-feira, a sessão (única) às 18h10 será gratuita. Nada mais justo para quem, dispensando o comodismo ou preguiça, se dispõe a seletivamente escolher seu cineminha sagrado! Fui claro?


Se, há cinco anos perdíamos Wally, outro grande poeta/jornalista/ cineclubista também iria embora: Jairo Ferreira. Que por sinal, mesmo em sua fase terminal – conforme lhe encontrei em seu apartamento na Aclimação –, acabei meio como um mensageiro ingênuo ou inconsciente lhe dizendo a certa altura, que meses antes Wally tinha falecido; para seu espanto.


Bem, se psicografia é algo verídico, creio que esses caros mortos estão a me guiar... para citar ainda outras duas personalidades do mundo do cinema – igualmente amigas -: Luiz Orlando da Silva e Hilda Machado, que recentemente também se foram.


Os 83 minutos de Pan-Cinema.. ., que este ano ganhou como o melhor da competição nacional (um troféu e um cheque de R$ 100 mil) no 13º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade; e está sendo elogiadíssimo pela imprensa paulista (“Estadão e “Folha”), de fato merece tudo isso. Sua eloqüência experimental, a exemplo de Loki – Arnaldo Baptista de Paulo Henrique Fontenelle (exibido na recém 32ª Mostra Int. de São Paul) expõe Wally Salomão ostensivamente, com toda a sua verborragia conhecida (“A vida é Sonho! a vida é sonho! a vida é sonho!”, em alguns momentos nos é deliciosamente sussurrado) sem ser agressivo ou exagerado. Podemos também absorver, as entrevistas do diretor, de Antonio Cícero ou Caetano Veloso (altamente influenciados por ele) em off, numa boa. Sem contar as intervenções musicais deste último, mais Adriana Calcanhoto. Tudo sempre apresentado por diversas imagens de arquivo, inclusive em Super 8, filmadas por Wally: desde a Amazônia, passando por Paris ou num museu em Colônia (Alemanha), até o encontro de familiares no interior da Síria. Aliás, a abertura do filme já vale o ingresso: em plano geral, uma loja de departamentos exibe vários televisores ligados, todos com a mesma sintonia, quando uma pessoa muda o canal de um deles, damos de cara com uma entrevista dele à uma emissora de TV Síria, em que outras coisas, canta trecho de “Mel” (a entrevista é em inglês): “Ô abelha rainha / Faz de mim instrumento / De seu prazer, sim, e tua glória...”, que juntamente com “Talismã” tanto sucesso fez na voz de Maria Bethânia.


Por fim, outra canção sua “Vapor Barato”, Gal Costa maravilhosamente interpreta (e que também encerra a seqüência final de Terra Estrangeira de Walter Salles). Baiano de Jequié, Wally era filho de sírio mulçumano e uma sertaneja baiana, um verdadeiro multimídia, formado em Direito que tornou-se poeta e importante letrista da MPB, justamente durante sua prisão numa cela no Carandiru. Mas sempre deixa claro seu amor pelo cinema. É um documentário performático! Você vai deixar de assistir?

Rui de Souza

São Paulo, 15 de novembro de 2008.

Um comentário:

CulturaSemFronteiras disse...

Ruizão; belo texto, ou como queira, crítica. Continue com suas intervenções sempre perpicazes, lúcidas e bem colocadas no tempo e no espaço. Precisamos de textos assim.
João Subires